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Enquanto o ônibus humilha o campo-grandense, Câmara transforma banheiro feminino em prioridade

Votação acirrada sobre pauta de costumes expõe contraste com a falta de resposta proporcional a um drama diário da população.

26/03/2026 às 22:07
Por: editor

Em uma cidade onde o transporte coletivo virou sinônimo de espera, lotação, desgaste e indignação diária, a Câmara Municipal de Campo Grande decidiu fincar trincheira nesta semana em outro terreno: o da guerra de costumes. Na sessão desta quinta-feira (26), os vereadores aprovaram, por placar apertado, o projeto que restringe o uso de banheiros femininos a “mulheres biológicas”, numa votação que incendiou o plenário, dividiu a Casa e colocou a Capital no centro de mais uma disputa ideológica.

 

Isoladamente, o episódio já teria peso político suficiente para render manchetes. Mas, colocado ao lado de outra decisão recente da própria Câmara, ele passa a contar uma história maior, e mais incômoda, sobre as prioridades do Legislativo campo-grandense. No início de março, os mesmos vereadores aprovaram um pacote de incentivos que pode chegar a quase R$ 40 milhões em 2026 para o Consórcio Guaicurus, empresa que opera o transporte coletivo e acumula críticas públicas, desgaste de imagem e questionamentos sobre a qualidade do serviço prestado à população.

 

O contraste é o que torna a pauta explosiva. De um lado, a Câmara demonstrou rapidez, energia política e disposição para comprar uma briga de alto teor simbólico, em um tema que mobiliza paixões, gera confronto ideológico e projeta seus autores no debate conservador. De outro, quando o assunto é o sistema de ônibus que atinge diretamente o trabalhador, o estudante, o idoso e a periferia, a marca mais visível deixada pela Casa neste mês foi a aprovação de benefícios milionários ao consórcio.

Votação apertada

 

A proposta sobre os banheiros foi aprovada por 13 votos a 11. O texto, de autoria do vereador André Salineiro, estabelece que banheiros femininos em espaços públicos sejam usados exclusivamente por mulheres biológicas e amplia a chamada Política Municipal de Proteção da Mulher para outras frentes, como cotas de gênero em concursos e participação esportiva. A votação foi apertada, provocou discussão acalorada e expôs uma Câmara disposta a se lançar em uma pauta de costumes com alto potencial de polarização.

 

Poucos dias antes, porém, o ambiente político foi outro. Em 3 de março, os vereadores aprovaram dois projetos enviados pela prefeita Adriane Lopes que garantem ao Consórcio Guaicurus a manutenção da isenção do ISSQN, estimada em cerca de R$ 11 milhões, e uma subvenção econômica de até R$ 28 milhões para custear gratuidades no transporte coletivo. Somados, os dois mecanismos representam um alívio que pode chegar a quase R$ 40 milhões ao sistema em 2026.

 

Na prática, a mensagem política que sai da Câmara é dura para o usuário de ônibus: para a pauta ideológica, enfrentamento; para o drama cotidiano do transporte, incentivo. E isso num contexto em que o contrato do Consórcio Guaicurus segue cercado por controvérsia. Enquanto o grupo recebe benefícios milionários, também acumula multas superiores a R$ 12 milhões por descumprimentos contratuais, numa relação descrita como de “morde e assopra” entre poder público e concessionária.

 

O problema, para a Câmara, não está apenas no mérito de cada projeto isoladamente. Está no efeito combinado das decisões. O Legislativo que agora aparece endurecendo discurso em nome da proteção das mulheres foi o mesmo que, no caso do transporte, ajudou a destravar um socorro financeiro robusto ao sistema mais criticado da cidade. Isso amplia a sensação de descompasso entre a agenda simbólica dos vereadores e as urgências concretas de quem depende do ônibus para trabalhar, estudar ou acessar serviços públicos.

 

Apelação

 

A justificativa oficial para os incentivos foi evitar pressão sobre a tarifa e manter gratuidades de estudantes, idosos, pessoas com deficiência e candidatos do Enem e vestibulares. O argumento tem apelo social e não é desprezível. Mas ele não elimina a contradição política: a mesma Casa que aprovou o pacote não conseguiu transformar a crise estrutural do transporte em uma ofensiva legislativa com a mesma visibilidade, a mesma contundência e o mesmo senso de urgência demonstrados na votação sobre banheiro feminino.

 

Esse descompasso ajuda a explicar por que a discussão extrapola o campo da identidade de gênero e passa a ser, também, uma pauta sobre prioridades públicas. Quando a Câmara escolhe travar uma guerra cultural em horário nobre da política local, ela também faz uma escolha sobre o que deseja colocar no centro da atenção da cidade. E, ao fazer isso no mesmo mês em que beneficia financeiramente o transporte coletivo mais contestado da Capital, oferece de bandeja ao público uma pergunta inevitável: por que o plenário parece mais mobilizado para regulamentar banheiro do que para confrontar, com igual vigor, a precariedade do ônibus?

 

A situação se torna ainda mais sensível porque o próprio sistema de transporte está sob pressão institucional. Em março, a prefeita Adriane Lopes informou que a análise do contrato caminhava para possível intervenção no Consórcio Guaicurus, após criação de comissão especial para avaliar irregularidades na concessão. Ou seja: enquanto o contrato é tratado, em outra frente, como suficientemente problemático para justificar apuração aprofundada e até uma eventual intervenção, a Câmara já havia autorizado um fôlego financeiro de dezenas de milhões de reais ao sistema.

 

Nesse cenário, a votação sobre banheiro feminino deixa de ser apenas uma pauta moral e passa a funcionar como vitrine de um método político. Um método em que temas de alto apelo ideológico ocupam o centro do debate, enquanto assuntos que afetam a vida real em escala massiva acabam devolvidos à população com respostas mais ambíguas, mais brandas ou mais favoráveis aos operadores do sistema. A crítica que emerge daí não é só à proposição de Salineiro, mas ao retrato mais amplo de uma Câmara que parece confortável em disputar valores, ao mesmo tempo em que produz complacência institucional diante de um serviço que virou fonte permanente de revolta popular.

 

A defesa do projeto dos banheiros deve seguir mobilizando setores conservadores, assim como a crítica à proposta continuará forte entre movimentos LGBTQIA+, juristas e entidades de direitos humanos. Já o pacote em favor do Guaicurus tende a alimentar o flanco mais incômodo para os vereadores: o da percepção de que a Casa escolheu ser dura no discurso e generosa com o sistema de ônibus. Em política, esse tipo de contraste costuma ter efeito devastador porque transforma decisões distintas em uma narrativa única, a de que há energia de sobra para a pauta que divide e sensibilidade de menos para a pauta que aperta a rotina da cidade.

 

No fim, é essa a imagem que fica de março na Câmara de Campo Grande: uma Casa capaz de incendiar a cidade ao legislar sobre quem pode entrar no banheiro feminino, mas que, diante do colapso de confiança no transporte coletivo, terminou oferecendo ao Consórcio Guaicurus não um enfrentamento equivalente, e sim um pacote milionário de sustentação. Para uma população espremida entre ônibus ruins e debates cada vez mais agressivos sobre costumes, a conta política dessa escolha pode estar apenas começando.

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