Uma nova denúncia que atinge a rede municipal de saúde de Campo Grande não surge como caso isolado. Ela aparece no momento em que a cidade já convive com falta de medicamentos, filas nas unidades, inquéritos do Ministério Público, cobrança pública por falhas assistenciais e pressão política em torno da terceirização da saúde.
Neste domingo (12), uma médica denunciou ter sido vítima de transfobia e expulsão verbal de plantão na UPA Coronel Antonino. O caso foi registrado como possível crime de discriminação por identidade de gênero.
O episódio ganha peso porque atinge justamente uma rede já marcada por sucessivos alertas sobre desorganização, precariedade estrutural e dificuldade de resposta da gestão. Em vez de aparecer como fato isolado, a denúncia amplia a pressão sobre a prefeitura num cenário em que pacientes, servidores, órgãos de controle e entidades da saúde vêm apontando problemas recorrentes no atendimento público da Capital.
Denúncia não surge no vazio
A UPA Coronel Antonino não chega a este novo episódio sem histórico recente de problemas. Em novembro de 2025, o Ministério Público de Mato Grosso do Sul instaurou inquérito civil para apurar irregularidades estruturais e assistenciais na unidade.
A vistoria do órgão apontou infiltrações, mofo, desgaste de pintura, sala de isolamento interditada, aparelhos de ar-condicionado inoperantes, camas e macas inadequadas, raio-X interrompido e falta de equipamentos essenciais, como monitor multiparamétrico, oxímetro portátil, ventilador mecânico e esfigmomanômetros. O próprio MPMS também registrou ausência de medicamentos da Remune e desfalques temporários de técnicos de enfermagem.
Se a denúncia na Coronel Antonino expõe o ambiente interno da rede, o caso do menino João Guilherme, de 9 anos, expôs o risco direto ao paciente. Conforme divulgação na imprensa, prontuário aponta falha na intubação realizada na UPA Universitário e que o Samu encontrou a criança em parada cardiorrespiratória, com o tubo mal fixado e sangue nas vias aéreas. O caso foi registrado como homicídio culposo.
Esse contexto torna a nova denúncia ainda mais grave. Quando a rede já está sob cobrança por um caso cercado de indícios de falha assistencial, qualquer relato de humilhação, perseguição ou tumulto interno em plantão deixa de ser apenas um problema de ambiente de trabalho e passa também a levantar questionamentos sobre a segurança do atendimento prestado à população.
A crise já havia sido registrada
No último dia 2 de março, a crise da saúde pública de Campo Grande foi tema de audiência pública na Câmara Municipal. Na ocasião, houve menção a colapso assistencial, superlotação nas UPAs, escassez de medicamentos e fragilidade da rede, enquanto o secretário Marcelo Vilela reconheceu desafios como o fornecimento ininterrupto de medicamentos e insumos, a necessidade de estruturar melhor a rede e a garantia de leitos para urgência.
As denúncias recentes contra a saúde de Campo Grande não se resumem a um caso ou a uma unidade. Em fevereiro deste ano, o MPMS abriu inquéritos civis para apurar irregularidades na UPA Leblon e na USF Alfredo Neder, com menções a falhas estruturais, indisponibilidade de equipamentos, falta de medicamentos, insuficiência de recursos humanos e dificuldades na organização do atendimento.
Em março, pacientes relataram falta de medicamento de uso contínuo para diabetes em unidades da Capital, inclusive na Coronel Antonino, além de escassez de insumos básicos. Em fevereiro, foi registrada pela imprensa local espera superior a quatro horas na UPA Coronel Antonino, com reclamações sobre escassez de médicos plantonistas
Antes disso, em dezembro de 2025, o CRM-MS divulgou nota pública de “profunda preocupação” com o desabastecimento de medicamentos e insumos básicos nas UPAs e CRSs. Já em audiência na Câmara, em 27 de fevereiro, foi informado que a Prefeitura encerrou 2025 devendo R$ 82,3 milhões a fornecedores, dos quais R$ 23,2 milhões estavam empenhados e não pagos.
Quando esses fatos são colocados lado a lado, o quadro deixa de ser discurso político e passa a ser documento. Há investigação do Ministério Público, manifestação do conselho profissional, relatos de pacientes, queixas de servidores, audiência pública sobre colapso e agora uma denúncia de discriminação dentro de uma unidade já marcada por problemas graves.
Terceirização amplia o desgaste político
No dia 10 de abril, em audiência pública na Câmara, a prefeitura defendeu terceirizar por um ano a gestão dos CRSs Tiradentes e Aero Rancho. Reportagens sobre o debate registraram custo mensal estimado em R$ 4,3 milhões por unidade, protestos de servidores e críticas do Conselho Municipal de Saúde, de vereadores e do superintendente do Ministério da Saúde em Mato Grosso do Sul, que alertou para risco de precarização.
O ponto mais sensível do debate apareceu justamente ali: representantes do controle social sustentaram que a gravidade da crise não pode ser usada pela gestão Adriane Lopes, como argumento para apressar uma mudança de modelo sem enfrentar, antes, problemas como abastecimento, estrutura, equipes e organização da rede.
Caso da transfobia agrava o cenário
É por isso que a denúncia da médica atinge em cheio a imagem da gestão. Não se trata apenas de um caso que, por si só, já exige apuração rigorosa. Inserida num cenário de falta de estrutura, reclamações de pacientes, investigações e desgaste político, a acusação reforça a percepção de desorganização dentro da rede.
Enquanto famílias denunciam demora, falta de insumos e falhas graves de atendimento, enquanto o Ministério Público instaura inquéritos e a cidade discute terceirização sob protestos, a UPA Coronel Antonino volta ao centro do noticiário por um caso que envolve, ao mesmo tempo, ambiente de trabalho, gestão e qualidade da assistência.