
CAMPO GRANDE (MS) — Se a diplomacia internacional prega pontes, a política doméstica brasileira continua especialista em erguer muros. A realização da COP15 (Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias), que transformou Campo Grande no epicentro do debate ambiental global nesta semana, serviu também como palco para uma "saia justa" política de proporções continentais entre a prefeita Adriane Lopes (PP) e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
De um lado, a urgência global defendida por Lula e sua ministra do Meio Ambiente, Marina Silva. Do outro, a urgência literal e molhada da prefeita reeleita de Campo Grande, que viu a cidade ser castigada por chuvas de mais de 100 milímetros poucos dias antes de receber delegações de todo o mundo.
O plano de Adriane Lopes era claro e foi antecipado publicamente: aproveitar a visita da comitiva presidencial para apresentar a "fatura" dos estragos climáticos locais. O alvo principal? O repasse federal de cerca de R$ 80 milhões para resolver de vez o caos crônico de drenagem na Avenida Rachid Neder e arredores.
No entanto, o xadrez político falou mais alto. Durante a abertura do Segmento de Alto Nível da COP15 neste domingo (22), Lula e Adriane Lopes dividiram o mesmo evento na chamada "Blue Zone" (área de jurisdição da ONU), mas a proximidade parou na fotografia oficial. A prefeita confirmou, nesta segunda-feira (23), que não conseguiu a tão esperada reunião reservada com o presidente da República.
O Contraste Político e Estrutural
O desencontro não é mera obra do acaso na agenda. Ele escancara o distanciamento ideológico e administrativo entre o Palácio do Planalto e o Paço Municipal. Adriane Lopes, representante do espectro de centro-direita e que venceu uma eleição acirrada no segundo turno de 2024 (derrotando Rose Modesto), tem lidado com cobranças pesadas da população. As fortes chuvas recentes não apenas expuseram o déficit de infraestrutura e a buraqueira na capital, mas também colocaram a gestão municipal sob forte pressão a poucos dias de hospedar líderes mundiais.
Para o Governo Federal, a COP15 em Campo Grande é uma vitrine estratégica de sustentabilidade e um aceno ao agronegócio e à preservação do Cerrado e do Pantanal, pavimentando o caminho do Brasil até a COP30 em Belém. Para a Prefeitura, o evento era a chance de transformar a diplomacia em asfalto e escoamento de água.
Marketing Internacional ou Solução Local?
Sem o cheque de R$ 80 milhões garantido na bagagem, restou à gestão municipal capitalizar sobre a magnitude do evento. Adriane Lopes tem enfatizado a visibilidade histórica que Campo Grande ganha ao sediar a COP15 e o gigantesco esquema de segurança e logística montado, com placas bilíngues e atuação pesada da Guarda Civil Metropolitana.
Contudo, a polêmica que fica nos bastidores políticos da cidade é inevitável: de que serve discutir a rota das aves migratórias a 320 km/h se o cidadão campo-grandense não consegue atravessar uma avenida alagada na própria cidade?
A COP15 terminará, as delegações internacionais voltarão para casa e a "Blue Zone" será desmontada. A dúvida que fica é se o distanciamento entre Adriane e Lula deixará Campo Grande enfrentando suas tempestades — climáticas e políticas — sozinha.