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Prefeitura de Campo Grande vai à audiência fragilizada por crise, dívidas e falta de remédios

Proposta para repassar os CRSs Aero Rancho e Tiradentes a OSSs chega à audiência cercada por falta de medicamentos, rombo com fornecedores e rejeição do Conselho Municipal de Saúde.

09/04/2026 às 21:19
Por: editor

Às vésperas da audiência pública, proposta para repassar Aero Rancho e Tiradentes a OSSs enfrenta rejeição do Conselho Municipal de Saúde, protestos de servidores e cobrança sobre falta de medicamentos, leitos e R$ 82,3 milhões em dívidas com fornecedores.

A prefeitura de Campo Grande chega à audiência pública desta sexta-feira (10/4), às 9h, defendendo a terceirização da gestão dos CRSs Aero Rancho e Tiradentes para Organizações Sociais de Saúde (OSSs). Mas a proposta avança em meio a um cenário que fragiliza o discurso oficial de eficiência: o próprio secretário municipal de Saúde, Marcelo Vilela, admitiu publicamente falta de medicamentos, insuficiência de recursos, pressão da judicialização e necessidade de mais leitos na rede.

O projeto apresentado pela Sesau prevê um piloto de 12 meses nas duas unidades 24 horas, justamente apontadas como as maiores da rede municipal. Segundo os dados levados pela própria gestão ao debate, Aero Rancho e Tiradentes consomem hoje cerca de R$ 4,3 milhões por mês, ou R$ 51,6 milhões por ano. A proposta, porém, foi rejeitada pelo Conselho Municipal de Saúde em 25 de março, que barrou tanto o piloto quanto a possibilidade de ampliação futura do modelo.

A razão da rejeição foi direta: para o conselho, trocar o gestor da unidade não resolve os gargalos estruturais da saúde pública de Campo Grande. Entre os problemas apontados estão falta de leitos, desabastecimento de medicamentos, deficiência de insumos e ausência de retaguarda hospitalar. Na prática, a leitura do colegiado é que a prefeitura tenta alterar a vitrine da rede sem enfrentar o núcleo da crise.

Município reconhece diagnóstico

Essa crítica ganha peso porque parte do diagnóstico foi confirmado pelo próprio secretário Marcelo Vilela. Em audiência na Câmara, Marcelo Vilela afirmou que 33% do caixa da prefeitura é aplicado em saúde e que, mesmo assim, o valor segue insuficiente. Ele também reconheceu que a compra de medicamentos é hoje a prioridade da pasta, disse que a falta de remédios é uma das principais dores do usuário do SUS e admitiu que a regularização do estoque não seria total.

As admissões não pararam aí. Vilela declarou que a alta complexidade é hoje o maior custo do sistema, apontou carência de leitos e relatou forte impacto da judicialização sobre o orçamento da saúde. Em outra frente, a prestação de contas mostrou que a prefeitura fechou 2025 com R$ 82,3 milhões em dívidas com fornecedores, sendo R$ 23,2 milhões já empenhados, mas sem caixa para pagamento. Na mesma discussão, o secretário resumiu o quadro em uma frase que agora pesa politicamente contra a gestão: “o problema é falta de recurso mesmo”.

É esse contraste que torna o debate tão explosivo. De um lado, a prefeitura afirma que a terceirização pode trazer mais agilidade, metas de desempenho e eventual redução de custos. De outro, o que aparece no discurso público da própria Sesau é um sistema pressionado por falta de dinheiro, dificuldade de compras, insuficiência de leitos e abastecimento irregular de medicamentos. A pergunta que entra na audiência pública é inevitável: o problema central da rede é o modelo administrativo das unidades ou a incapacidade da gestão de resolver o básico?

A resistência ao projeto não ficou restrita ao conselho. Servidores da saúde lotaram a Câmara Municipal em manifestação contra a proposta e transformaram o tema em um dos principais focos de tensão política da Capital. O protesto reuniu trabalhadores, conselheiros e usuários do SUS, todos cobrando que a prefeitura enfrente primeiro os gargalos estruturais antes de discutir repasse da gestão a OSSs.

Opositores à terceirização

Na Câmara, o campo contrário à terceirização já tem nomes. Victor Rocha se posicionou contra a medida e afirmou que o principal problema da saúde não está no modelo de gestão, mas na falta de leitos, insumos e estrutura para dar vazão à demanda. Dr. Lívio também já foi registrado como contrário ao projeto. Luiza Ribeiro apresentou proposta para vedar privatização ou terceirização da gestão da saúde no município, com apoio de Marquinhos Trad, Landmark Rios, Ronilço Guerreiro, Maicon Nogueira e Jean Ferreira.

No bloco favorável, Rafael Tavares aparece como o vereador que mais claramente defendeu a privatização da saúde e o uso de Organizações Sociais no município. Isso mostra que a Câmara não está fechada em uma única posição, mas também evidencia que a prefeitura, até aqui, não conseguiu formar consenso político em torno da proposta.

Outro ponto que aumenta a desconfiança sobre o projeto é a falta de clareza total sobre a vantagem econômica prometida. Em diferentes momentos do debate público, a gestão falou em ganhos de eficiência e economia, mas o centro da discussão continua sendo menos o quanto a prefeitura pretende economizar e mais o que deixará de ser explicado: por que terceirizar agora, justamente quando a própria administração admite dificuldades para abastecer farmácias, pagar fornecedores e garantir leitos?

A audiência pública desta sexta-feira, 10 de abril, às 9h, foi reagendada após o adiamento provocado pelo falecimento de Nelly Bacha. O encontro, convocado pela Comissão Permanente de Saúde da Câmara, deve reunir população, profissionais de saúde, gestores e representantes do Conselho Municipal de Saúde. Mais do que discutir um modelo administrativo, a sessão deve expor uma disputa política maior: se a prefeitura está realmente apresentando uma solução para a saúde pública ou tentando convencer a cidade a aceitar uma mudança de gestão sem ter resolvido a falta de remédios, de leitos e de dinheiro.

Na véspera da audiência, o dado mais sensível para o campo-grandense talvez seja este: o Conselho Municipal de Saúde já disse que a terceirização não ataca a raiz do problema. E, até agora, nada do que a própria Sesau admitiu em público parece contradizer esse diagnóstico.

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